Sobretensão Elétrica: O Que É, Causas e Como se Prevenir

22 de jul de 2025

Sobretensão Elétrica: O Que É, Causas e Como se Prevenir

Em qualquer instalação elétrica – seja residencial ou comercial – além de falhas como os curto-circuitos ou as sobrecargas, existem fenômenos de sobretensão que podem comprometer a segurança de equipamentos e pessoas. A sobretensão refere-se a um aumento anormal da tensão elétrica acima dos níveis nominais da rede. Esse incremento, ainda que possa durar de microsegundos até períodos prolongados, é capaz de causar danos graves em instalações e equipamentos elétricos se não for devidamente controlado.

A seguir, explicamos em detalhe o que é uma sobretensão, seus tipos, causas frequentes, as consequências que provoca e como preveni-la eficazmente – enfatizando a importância da segurança elétrica segundo as normativas vigentes em Portugal e na Europa (como o RTIEBT e IEC 60364).

O que é uma sobretensão?

Sobretensão é um aumento da tensão elétrica da rede acima do valor nominal estabelecido. Em sistemas domésticos de baixa tensão (tipicamente 230 V monofásico em Portugal), considera-se sobretensão qualquer elevação significativa além da margem de tolerância (aproximadamente 10% acima de 230 V). Em outras palavras, ocorre quando a tensão supera de forma anormal os níveis para os quais os equipamentos foram projetados.

As sobretensões podem ser transitórias (de curtíssima duração, comumente chamadas de picos ou impulsos de tensão) ou permanentes (mais prolongadas ou praticamente contínuas). Cada tipo tem origens e características distintas, mas ambos representam um risco para a integridade de uma instalação elétrica e dos aparelhos a ela conectados.

Sobretensões transitórias (picos breves de tensão)

As sobretensões transitórias são aumentos súbitos de tensão de duração muito breve, tipicamente da ordem de microsegundos a milissegundos. Apesar de sua curta duração, podem atingir amplitudes extremamente altas (centenas ou milhares de volts acima do normal). Sua origem mais destrutiva costuma ser descargas atmosféricas – isto é, raios que caem próximo às linhas elétricas ou atingem diretamente a rede de distribuição. Um raio induz um impulso eletromagnético que se propaga pela rede e pode chegar às nossas tomadas em forma de pico de tensão.

Outras causas de sobretensões transitórias são manobras de comutação na rede elétrica: por exemplo, desconexões ou reconexões bruscas de cargas muito indutivas (motores, transformadores) ou capacitivas, bem como operações em centros de transformação ou subestações. Mesmo um curto-circuito ou uma falha repentina em um circuito próximo pode gerar um pico transitório que se transmite através do sistema elétrico.

Devido à sua natureza instantânea, uma sobretensão transitória pode danificar componentes eletrônicos sensíveis num piscar de olhos. Semicondutores, circuitos impressos e isolantes internos dos equipamentos podem sofrer perfuração ou degradação devido à tensão excessiva. Embora o pico dure microsegundos, a energia liberada nesse instante pode ser suficiente para queimar um circuito integrado, estragar fontes de alimentação ou travar o funcionamento de sistemas de controle. Além disso, sobretensões repetitivas (mesmo que não sejam de magnitude tão alta) vão fatigando o isolamento e reduzindo a vida útil dos aparelhos. Por isso, é fundamental proteger os dispositivos conectados – especialmente aqueles sensíveis, como computadores, equipamentos audiovisuais ou sistemas de comunicação – contra esse tipo de sobretensão.

Sobretensões permanentes (sobretensões de longa duração)

As sobretensões permanentes (também denominadas temporárias à frequência industrial) são elevações de tensão que se mantêm durante vários ciclos da corrente alternada ou até de forma contínua, até que se elimine a causa. Em contraste com os picos transitórios, aqui a tensão se eleva de maneira sustentada a um nível anormal (por exemplo, da ordem de 20–50% acima do nominal) e persiste assim por segundos, minutos ou mais, até que algum dispositivo de proteção atue ou o defeito seja corrigido. A causa mais comum de uma sobretensão permanente é uma falha no condutor neutro da instalação ou da rede de distribuição.

Quando o neutro se parte ou se desconecta em um sistema trifásico com cargas desequilibradas (típico em redes de baixa tensão), as fases deixam de ter uma referência comum equilibrada. Isso faz com que algumas linhas monofásicas fiquem submetidas à tensão fase-fase (em vez de fase-neutro), duplicando aproximadamente o valor de voltagem que os equipamentos domésticos recebem (passando de ~230 V para ~400 V). Essa sobretensão prolongada impõe aos aparelhos um estresse elétrico enorme para o qual eles não foram projetados.

Outras situações que podem gerar sobretensões permanentes incluem reguladores avariados em centros de transformação (que podem enviar uma tensão incorreta por algum tempo) ou ligações errôneas (por exemplo, alimentar por engano um circuito de 230 V com uma linha de tensão superior). Seja qual for a fonte, o efeito é que todos os equipamentos conectados passam a receber uma tensão anormalmente alta de forma sustentada.

Isso geralmente provoca sobreaquecimento em transformadores, motores e fontes de alimentação dos dispositivos, aumentando a corrente consumida e a dissipação de calor. Se a sobretensão não for cortada a tempo, podem queimar-se bobinas, estourar capacitores eletrolíticos e, em geral, ocorrer falhas catastróficas nos aparelhos. É até possível que se iniciem incêndios devido ao calor gerado em condutores ou equipamentos submetidos a tensão além do suportável.

Aspecto Sobretensão transitória Sobretensão permanente
Duração típica Microsegundos – milissegundos (impulso breve) Segundos, minutos ou até que a falha seja corrigida
Magnitude da tensão Picos muito altos (pode atingir kV) Aumento moderado porém sustentado (10%–100% acima do nominal)
Causas frequentes Descargas atmosféricas (raios), manobras de comutação, ligar/desligar cargas indutivas Rutura do neutro, erros de ligação, regulador avariado, falhas prolongadas na rede
Efeitos principais Dano instantâneo a equipamentos eletrônicos sensíveis, degradação acumulativa, reinicializações de aparelhos Sobreaquecimento de aparelhos, destruição em massa de eletrodomésticos, risco elevado de incêndio
Proteção adequada DPS transitórios (dispositivos de proteção contra surtos) Tipo 1, Tipo 2 e bases múltiplas especiais (Tipo 3) Protetores contra sobretensão permanente (POP) que desligam a instalação
Localização do protetor Quadro elétrico principal, subquadros e bases múltiplas especiais (ex.: série ION) Quadro geral, antes dos interruptores diferenciais
Norma aplicável RTIEBT / IEC 60364: proteção contra sobretensões transitórias obrigatória conforme risco RTIEBT / IEC 60364: obrigação de proteger contra sobretensões permanentes e subtensões
Risco sem proteção Falha súbita de placas eletrônicas e perda de dados Destruição de numerosos eletrodomésticos e possível incêndio

Causas frequentes das sobretensões

Resumindo o que foi exposto, as sobretensões em baixa tensão geralmente se originam por três causas principais, relacionadas a fatores atmosféricos ou operacionais da rede elétrica:

  • Raios e fenômenos atmosféricos: A queda de um raio perto das linhas elétricas, em antenas ou em para-raios conectados à rede induz uma onda de sobretensão transitória que viaja pela instalação. É uma das causas mais perigosas, já que os picos por descarga atmosférica alcançam valores muito elevados em pouquíssimo tempo.
  • Manobras de rede e comutações: Operações de conexão ou desconexão brusca no sistema elétrico (por exemplo, partida ou parada de motores potentes, comutação de capacitores de correção do fator de potência, mudanças na topologia da rede de distribuição) geram sobretensões transitórias por efeitos eletromagnéticos transitórios. Da mesma forma, falhas como curtoscircuitos ou aberturas repentinas de circuitos sob carga produzem picos de tensão que se propagam pela rede.
  • Rutura ou má conexão do neutro: É a causa típica das sobretensões permanentes. Uma perda do neutro em sistemas polifásicos provoca um desiquilíbrio de tensões, elevando a tensão de fase em alguns circuitos muito acima do normal. Também defeitos em transformadores ou erros de ligação podem causar um aumento sustentado de tensão até que o problema seja corrigido.

Consequências das sobretensões

As consequências de uma sobretensão descontrolada podem ser muito graves tanto para os equipamentos elétricos quanto para a própria instalação e, inclusive, para as pessoas que dela dependem. Entre os principais efeitos danosos das sobretensões (sejam transitórias ou permanentes) estão:

  • Dano instantâneo a aparelhos elétricos e eletrônicos: Um pico de tensão pode destruir instantaneamente componentes sensíveis. Por exemplo, circuitos integrados, fontes de alimentação, carregadores, motores elétricos ou eletrodomésticos podem ficar inutilizados após uma sobretensão intensa.
  • Redução da vida útil e falhas latentes: Mesmo quando uma sobretensão não queima um equipamento de imediato, ela pode degradar seus componentes internos. Isolantes submetidos a esforços elétricos repetitivos se enfraquecem, componentes eletrônicos sofrem estresse e envelhecem prematuramente, o que resulta em falhas antecipadas semanas ou meses depois.
  • Incêndios e danos materiais: Tanto sobretensões transitórias fortes quanto permanentes podem causar incêndios. Um pico violento pode induzir faíscas ou queimar isolamentos, enquanto uma sobretensão permanente gera sobreaquecimento em cabos e aparelhos. Isso aumenta o risco de fogo em quadros elétricos, eletrodomésticos ou réguas de tomadas, comprometendo a segurança de pessoas e bens.
  • Interrupções do fornecimento e apagões: Se ocorrer uma sobretensão severa, é possível que atuem as proteções (fusíveis, diferenciais, protetores de sobretensão) desligando a instalação para evitar danos maiores. Isso resulta em cortes de luz ou reinicializações inesperadas de equipamentos. Em ambientes industriais, essas paradas podem significar importantes perdas de produção ou danos em processos sensíveis.
  • Perda de dados ou falhas em sistemas informáticos: Na era da digitalização, uma sobretensão pode afetar servidores, computadores e sistemas de armazenamento, provocando a perda de informações não salvas ou mesmo a corrupção de dados. Os sistemas informáticos e de comunicação costumam ser muito sensíveis a variações bruscas de tensão, de modo que um pico pode deixar inoperantes redes, roteadores, alarmes e outros equipamentos críticos.

Em resumo, uma sobretensão pode provocar desde o transtorno de ter que substituir um aparelho danificado até cenários catastróficos, como incêndios em instalações elétricas. Por isso, compreender suas causas e efeitos nos leva ao passo mais importante: a prevenção.

Como prevenir as sobretensões e proteger a instalação?

Prevenir os efeitos destrutivos das sobretensões passa por duas estratégias fundamentais: por um lado, projetar a instalação com dispositivos de proteção adequados e, por outro, adotar boas práticas de uso e manutenção. A seguir, descrevem-se as medidas mais eficazes para proteger uma instalação elétrica contra picos de tensão transitórios e sobrevoltagens permanentes:

  • Instalação de protetores contra sobretensões transitórias: São dispositivos comumente denominados DPS (Dispositivos de Proteção contra Surtos, do inglês Surge Protective Devices) ou PCS (Protetores Contra Sobretensões) que se conectam em paralelo à rede e desviam os surtos de tensão para a terra. Existem diferentes tipos conforme sua capacidade: os DPS Tipo 1 (também chamados descarregadores de correntes de raio) são instalados normalmente na entrada principal da instalação quando existe alto risco de descargas atmosféricas (por exemplo, se há para-raios no edifício ou linhas aéreas expostas a tempestades). Os DPS Tipo 2 são colocados nos quadros elétricos principais das residências e estabelecimentos, atuando contra sobretensões transitórias de origem tanto externa quanto de manobras internas; são praticamente obrigatórios em qualquer instalação nova ou reformada, segundo a normativa vigente. Por fim, os DPS Tipo 3 (protetores plugáveis ou em réguas de tomada) ficam próximos aos equipamentos sensíveis, complementando a proteção para absorver os picos residuais que possam passar após a ação dos tipos anteriores. Essa coordenação em cascata (Tipo 1, 2 e 3) garante um nível de proteção ótimo, reduzindo gradualmente a energia da sobretensão e protegendo inclusive os aparelhos mais delicados.
  • Uso de protetores contra sobretensões permanentes: Para lidar com sobrevoltagens de longa duração, empregam-se dispositivos que desligam a alimentação da instalação em caso de sobretensão sustentada. Esses protetores monitoram a tensão da rede e atuam sobre um dispositivo de corte (por exemplo, um relé ou um disparador que abra o circuito) quando detectam que a tensão excede um limiar predefinido por um breve intervalo (por exemplo, mais de 265 V durante algumas décimas de segundo, num sistema de 230 V). Ao isolar a instalação interna da rede, eles evitam que a sobretensão permanente danifique os equipamentos ou provoque incêndios. Alguns modelos de protetor contra sobretensão permanente incluem função de rearme automático, de modo a restabelecer a energia assim que os valores normais retornem – o que é útil para evitar cortes prolongados de fornecimento (por exemplo, em refrigeradores ou equipamentos críticos) sem intervenção manual.
  • Tomas de corrente e réguas com proteção incorporada: Além das proteções no quadro geral, é recomendável proteger individualmente os equipamentos de alto valor ou eletrônicos sensíveis. Para isso, existem bases múltiplas com proteção contra sobretensões, como a Série ION da Solera, que atuam como réguas onde conectar computadores, televisores, equipamentos de áudio etc. Essas tomadas especiais incorporam varistores ou outros componentes que absorvem picos de tensão e, em muitos casos, também possuem fusíveis ou interruptores térmicos contra sobrecarga, fornecendo uma defesa adicional diretamente no ponto de conexão do aparelho. Seu uso é uma boa prática para escritórios e residências com abundância de eletrônicos sensíveis.
  • Ligação à terra e equipotencialidade: Um sistema de aterramento adequado é indispensável para que os protetores de sobretensão funcionem eficazmente. A tomada de terra deve apresentar baixa resistência e cumprir a normativa, já que os DPS desviam a energia do pico para o condutor de proteção. Da mesma forma, é importante interligar as massas metálicas da instalação (condutores de proteção, para-raios, antenas, tubulações metálicas) por meio de uma rede equipotencial, de forma que, diante de uma descarga, todo o sistema suba e desça de tensão de maneira uniforme, minimizando diferenças potencialmente perigosas.
  • Boas práticas de uso e manutenção: Instaladores e técnicos devem seguir as orientações do Regulamento Técnico de Instalações Elétricas de Baixa Tensão (RTIEBT) e suas guias técnicas (por exemplo, a seção equivalente à ITC-BT-23 espanhola) no que se refere à proteção contra sobretensões. Isso inclui dimensionar e selecionar os protetores adequados ao tipo de instalação, sua localização geográfica e o nível de exposição (não é a mesma coisa uma habitação urbana que uma zona rural propensa a tempestades). É fundamental utilizar dispositivos com certificação conforme padrões internacionais (como a norma EN 61643-11 para DPS transitórios e EN 50550 para protetores de sobretensão permanente) e instalá-los seguindo as instruções do fabricante, respeitando a coordenação entre eles e a compatibilidade com outros elementos de proteção (por exemplo, coordená-los com disjuntores e diferenciais para evitar disparos intempestivos). Após uma forte tempestade ou uma sobretensão significativa, recomenda-se verificar o estado dos protetores – muitos incluem indicadores visuais que sinalizam se atuaram ou se precisam ser substituídos. Adicionalmente, em instalações críticas, convém programar revisões periódicas dos sistemas de proteção.

Normativa aplicável e obrigações

A legislação portuguesa reforça a importância de proteger as instalações contra sobretensões. O vigente RTIEBT (Regulamento Técnico das Instalações Elétricas de Baixa Tensão), alinhado com as normas europeias IEC 60364, estabelece a necessidade de incorporar sistemas de proteção contra sobretensões nas instalações de baixa tensão, como medida de segurança para as pessoas e os equipamentos conectados. Embora o regulamento nacional não detalhe em instruções separadas os protetores transitórios e permanentes como o espanhol faz, o critério geral abrange ambos os tipos de sobretensão.

De fato, na prática, toda nova habitação ou instalação reformada deve incluir tanto protetores de sobretensão transitória (por exemplo, um DPS Tipo 2 no quadro geral) quanto dispositivos contra sobretensão permanente – assegurando assim uma proteção completa. Os profissionais eletricistas têm a obrigação de seguir essas diretrizes ao projetar e executar instalações, não apenas para cumprir as normas vigentes, mas também para garantir a continuidade do fornecimento e a preservação dos aparelhos dos usuários.

Além da normativa nacional, existem padrões europeus e internacionais que orientam a fabricação e a aplicação desses protetores. Por exemplo, a norma EN 61643 e a IEC 61643 definem as categorias e ensaios para DPS dos tipos 1, 2 e 3, e a norma EN 50550 define os dispositivos de proteção contra sobretensões temporárias de frequência industrial (os POP – Power Frequency Overvoltage Protectors). Utilizar dispositivos que cumpram essas normas garante um nível de qualidade e desempenho adequado. Em suma, a normativa exige – e a boa técnica recomenda – que não se deve economizar na instalação de proteções contra sobretensões, pois seu custo é mínimo comparado aos estragos que podem evitar.

Conclusão: segurança elétrica diante das sobretensões

Entender o que é uma sobretensão e o que a provoca é o primeiro passo para tomar consciência dos riscos elétricos que enfrentamos em nossos lares e locais de trabalho. As sobretensões, tanto as breves e intensas quanto as sustentadas, podem ter impactos devastadores em nossos equipamentos e na própria instalação se não contarmos com as defesas adequadas. Felizmente, dispomos de tecnologia e normativas que, bem aplicadas, nos permitem minimizar esses riscos. A instalação de protetores contra sobretensões em cascata, uma correta ligação à terra e o cumprimento estrito do RTIEBT são ações-chave que todo instalador e usuário devem considerar.

Em definitiva, investir em proteção contra sobretensões é investir em tranquilidade. Desde evitar a avaria de um eletrodoméstico caro até prevenir incêndios, os sistemas de proteção resguardam tanto a economia quanto a segurança das pessoas. Por isso, é altamente recomendável consultar profissionais eletricistas sobre a situação da nossa instalação – se ela cumpre as normas atuais e se conta com os dispositivos adequados. Diante do menor indício de problemas de tensão (luzes que variam de intensidade, equipamentos que se danificam sem motivo aparente), é importante agir. Com as medidas preventivas corretas, garantiremos que as sobretensões se tornem apenas meras anedotas e não desastres elétricos.